Bispo é indicado a prêmio por defesa dos cristãos em invasão jihadista

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Atual arcebispo de Mossul conseguiu colocar em segurança cerca de 1300 manuscritos que retratam a cultura cristã no Iraque. O arcebispo de Mossul, Dom Najeeb Moussa Michaeel, é um dos nomes propostos pelo Parlamento Europeu para a atribuição do Prêmio Sahkarov deste ano. Ele teve um papel determinante na proteção de manuscritos que estavam na cidade onde, em 29 de junho de 2014, o líder do Daesh proclamou o ‘Califado’ jihadista.

Na época, o medo fez milhares de cristãos fugir diante das mais diversas ameaças. Entre os que abandonaram a cidade, estava o dominicano Najeeb Moussa, atual arcebispo de Mossul, que conseguiu colocar em segurança cerca de 1300 manuscritos que são um testemunho eloquente da cultura cristã no Iraque.

O próprio Parlamento Europeu justifica o nome do Arcebispo de Mossul como um dos cinco finalistas para o prêmio deste ano pelo seu papel na defesa dos cristãos e na salvaguarda dos preciosíssimos manuscritos que datam do século XIII ao século XIX. Dom Najeeb Moussa Michaeel “garantiu a evacuação dos cristãos, sírios e caldeus para o Curdistão iraquiano e salvaguardou mais de 800 manuscritos históricos”, pode ler-se na nota biográfica sobre os candidatos ao Prêmio Sahkarov.

Para a comunidade cristã, mesmo os que ainda não conseguiram voltar para casa, a possível atribuição do Prêmio Sahkarov a Dom Najeeb será muito relevante. Ele, de alguma forma, representa toda a comunidade que foi obrigada a sair de suas terras por causa do grupo terrorista.

A proteção dos manuscritos

Em 2018, como diretor do Centro Digital dos Manuscritos do Oriente, em Erbil, Najeeb Michaeel contou, em entrevista à Fundação AIS, como se deu o ataque dos jihadistas e como decidiu salvar os documentos.

“Mesmo antes do ISIS [ou Daesh] ter chegado e ocupado a nossa terra, o nosso mosteiro, senti que algo muito grave nos ia acontecer, especialmente em Qaraqosh, na Planície de Nínive. Por isso, decidi colocar todas estas coleções, muitos tipos de coleções, no caminhão grande e levá-las da Planície de Nínive e Mossul para Erbil, no Curdistão. É muito importante para nós salvar a nossa herança e salvaguardá-la para as gerações futuras.”

Nessa entrevista, o atual Arcebispo de Mossul explicava que a comunidade cristã iraquiana é muito antiga, tem dois mil anos de existência. “Temos muitas gramáticas e dicionários dos sécs. XII e XIII, principalmente em aramaico, a língua de Jesus Cristo. É a nossa língua mãe. Temos orgulho em conservá-los e também muitas coleções muçulmanas do Corão, do Hadiz, do Alfiya lbn Malik. E também alguns manuscritos yazidis.”

Todos os manuscritos que foram postos a salvo são património da humanidade. “Quando pego num manuscrito – disse ainda Najeeb Michaeel à Fundação AIS – penso nas muitas centenas, talvez milhares, de alunos que o terão utilizado. Prepararam a madeira, a pele, o papel, tudo, e rezaram por ele durante mais de mil anos. Quantos olhos, quantas bocas, quantas mãos não o terão tocado e usado até agora. É por isso que é tão importante conservá-lo e mantê-lo na nossa antiga comunidade”.

Sobre o Prêmio Sahkarov

Além do arcebispo de Mossul, são também candidatos ao Prémio Sahkarov deste ano, entre outros, a oposição democrática na Bielorrússia e ativistas ambientais hondurenhos.

O Prémio Sakharov para a liberdade de consciência, no valor de 50 mil euros, procura honrar a memória do dissidente soviético e cientista Andreu Sahkarov.

Estabelecido em 1988 pelo Parlamento Europeu, este prêmio já consagrou figuras como Nelson Mandela, da África do Sul, em 1988; Xanana Gusmão, de Timor-Leste, em 1999; D. Zacarias Kamwenho, de Angola, em 2001; a oposição democrática da Venezuela, em 2017; e, no ano passado, a Ilham Tohti, defensor dos direitos humanos uigur, professor de economia e defensor dos direitos desta minoria na China.

Marcio Brito
Marcio Brito

DaQui Agência Digital

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