Padre José Antônio Bertolin: São José, Pai trabalhador

Pio XII: “Nenhum trabalhador jamais esteve tão perfeitamente e tão profundamente penetrado do espírito do evangelho como aquele que viveu com Cristo na mais estreita intimidade e comunhão de família e de trabalho, São José, o pai putativo de Jesus”.
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A carta apostólica Patris corde do Papa Francisco enfatiza que um dos aspectos evidenciados na pessoa e missão de São José é o trabalho. De fato, os evangelistas ressaltam suficientemente a sua profissão de carpinteiro e de consequência, Jesus como o filho do carpinteiro de Nazaré. Vários documentos dos Papas ressaltam de maneira expressiva o exemplo edificante de São José trabalhador e a sua relação com o trabalho. Distingue-se na sua missão, a sua dedicação ao trabalho honesto para sustentar a sua família e para educar Jesus dando-lhe uma profissão, pois sendo ele carpinteiro tocou-lhe a responsabilidade de ensinar ao filho essa mesma profissão, a ponto de Jesus ser identificado como filho do carpinteiro (Mt 13.55; Mc 6,3).

São João Paulo II denominou São José em sua encíclica Laboren exercens, de setembro de 1981, como o “Evangelho do trabalho”. Não por nada o Papa Pio XII no dia 1º de maio de 1955, num discurso aos trabalhadores, o propôs patrono e modelo dos operários, instituindo a festa litúrgica de São José Operário para esse dia. No exercício de sua paternidade, José teve a honra de trabalhar com o Filho de Deus em sua carpintaria e de ensinar-lhe a profissão de carpinteiro.

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José era um tekton

Para alguns estudiosos, José era um tekton, ou seja, um operário que trabalhava com madeira, pedra ou metal, o que implicava que ele trabalhasse como escultor, pedreiro, marceneiro, etc; portanto, um trabalhador versátil. Alguns chegam a afirmar que José era um pequeno empreendedor ou até possuía uma firma de construção e que com seu trabalho honesto nela sustentava com dignidade a sua família. Estudiosos mais modernos são do parecer que ele era também um pedreiro, tendo em vista que a Galileia no tempo de Jesus era agrária e a profissão de pedreiro não exigia um trabalho especializado.

Como carpinteiro que exercia uma variedade de atividades, José tinha sua pequena oficina no quintal de sua casa onde guardava as madeiras, suas ferramentas (serra, martelo, pregos, esquadro, prumo…). Alguns admitem que ele não trabalhou somente na pequena Nazaré, mas também fora dela, sobretudo em Séforis, cidade perto de Nazaré e que foi reconstruída por Herodes naquele tempo. Como o rei precisava de artesãos para as obras desta cidade, certamente José fez parte do grupo de artesãos que se empenharam nesse trabalho. O histórico israelita Klausner, em seu livro sobre Jesus de Nazaré, apresenta um texto de Justino relatando que mais de um século depois de Cristo ainda se falava na Galileia dos arados fabricados por Jesus na oficina de Nazaré, o que não deixa dúvida que ele aprendeu essa profissão com José. Mas, além da carpintaria, José devia trabalhar no cultivo de legumes e de frutas, ou devia ter cuidado de algumas cabras ou ovelhas para prover todas as necessidades de sua casa. É preciso lembrar que a Galileia tinha terras férteis e produzia muito bem verduras e frutas, além do azeite de oliveira.

Trabalhador modesto e pobre

Uma coisa, porém, é certa: “era um trabalhador modesto e pobre, simples, pequeno, primitivo operário que nada tinha de especial, e que não deixou no Evangelho nenhuma palavra sua”, como afirmou o Papa Paulo VI. Foi aquele que dedicou com alegre empenho na educação de Jesus aproximando o trabalho humano ao mistério da redenção e servindo exemplarmente ao Redentor, ou como São João Paulo II o apresentou na encíclica Dominum et vivificatem de 18 de maio de 1986 ao falar de Jesus com essas palavras: “no início da atividade messiânica de Jesus, em Nazaré, onde transcorreu trinta anos na casa de José, o carpinteiro, ao lado de Maria, sua virgem Mãe”.

“Nenhum trabalhador jamais esteve tão perfeitamente e tão profundamente penetrado do espírito do evangelho como aquele que viveu com Cristo na mais estreita intimidade e comunhão de família e de trabalho, São José, o pai putativo de Jesus”, como afirmou Pio XII. Na verdade, José não foi apenas com bom trabalhador que ganhava a vida com o suor do seu rosto ou porque trabalhava como um bom profissional, mas porque desenvolveu seu trabalho com responsabilidade e amor, oferecendo-o a Deus. Por isso, ele é mais do que o modelo daquele que trabalha, é sim o modelo daquele que ama. O trabalho não foi para ele apenas um instrumento para se manter ou para ganhar dinheiro, pois ele trabalhava para o cumprimento da vontade de Deus. José, como afirma a Gaudium et Spes, “quis ter a vida de um trabalhador de seu tempo e de sua região.”

João Paulo II enfatiza o trabalho em sua encíclica Laborens exercens como uma referência na vida de Jesus, pois este fez parte de sua existência, e consequentemente também da revelação de Deus. Jesus dedicou a maior parte dos anos de sua vida sobre a terra trabalhando manualmente, junto a uma banca de carpinteiro. Ele não se serviu das realidades terrenas com o objetivo de se manifestar, mas se uniu a elas para santificá-las com a sua humanidade. Justamente porque o trabalho constitui uma dimensão fundamental da existência humana, decorre que Jesus escolheu esta dimensão para qualificar o seu estado social. Nesse sentido o Papa Paulo VI ensina com clareza: “é evidente que São José assume uma grande importância, se o Filho de Deus feito homem o escolheu para revestir-se de sua aparente filiação… Jesus Cristo quis assumir a qualificação humana e social deste operário”.

Espírito do Evangelho

Nesse ponto vemos muito sentido na iniciativa do papa Pio XII ter proposto São José como exemplo aos trabalhadores e ter enfatizado que ele foi justamente o santo em cuja vida mais penetrou o espírito do evangelho, e por isso concluiu enfaticamente que “Nenhum trabalhador foi tão perfeito e profundamente penetrado quanto o pai putativo de Jesus, o qual viveu com ele na mais estreita intimidade e comunhão familiar e de trabalho”.

“O trabalho de São José lembra-nos que o próprio Deus feito homem não desdenhou o trabalho”, afirma Francisco, e visto que o trabalho se tornou participação na obra redentora de Jesus, quem trabalha torna-se colaborador com o próprio Deus. Daqui decorre a necessidade em nosso mundo atual de se ter a consciência do trabalho para todo ser humano para que se sinta realizado dentro de sua família e possa proporcionar a ela o justo sustento e a dignidade. A falta de trabalho afeta profundamente a vida de milhares de pessoas e por isso, mais do que nunca é atual o apelo da Papa Francisco em sua carta apostólica para que “Peçamos a São José Operário que encontremos vias onde possamos comprometer até se di­zer: nenhum jovem, nenhuma pessoa, nenhuma família sem trabalho!”

A sensibilidade do Papa Francisco pela falta de trabalho aos irmãos o levou a afirmar em seu discurso aos participantes do Primeiro Encontro Mundial de Movimentos Populares, em outubro de 2014, que a importância demasiada do capital sobre o trabalho transforma o homem em mercadoria e a mercadoria em valor quase humano, e por isso fez nessa ocasião o apelo de não se ter “Nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho dá”. Ainda Francisco: “Não são poucas as vezes que sentimos a tentação de sermos cristãos mantendo distância prudente das chagas do Senhor. Jesus toca a miséria humana, convidando-nos a estar com ele a tocar a carne sofredora dos outros”. Os irmãos sem o trabalho são estes que têm a carne sofredora e nós como cristãos não podemos manter aquela “distância prudente” das feridas de Cristo, de não tocar a miséria humana devido a falta de trabalho aos irmãos.

“Sabemos que a paralisação econômica global desse último ano tem gerado o mesmo efeito sobre o mercado de trabalho. Setores mais ricos ou menos produtivos, atividades mais ou menos qualificadas, grandes empresas, sólidas até então, micro e pequenos negócios. Todos, sem exceção estão promovendo o desemprego indiscriminadamente. Além disso os conflitos, as mudanças climáticas e a covid-19 geraram o maior desafio humanitário desde a Segunda Guerra Mundial”, afirmou o secretário-geral da ONU, Antônio Guterres. Essa dura realidade nos diz que a dignidade dos nossos irmãos sem trabalho está comprometida e espezinhada, ainda mais porque tal realidade afeta os direitos fundamentais de educação, saúde, habitação, etc. Cabe-nos como Oblatos moldados na escola de São José, lutar para que os irmãos e irmãs tenham trabalho e trabalho digno.

Padre José Antônio Bertolin, Centro de Espiritualidade Josefino. Marelliana.Apucarana – Paraná

Marcio Brito
Marcio Brito

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