Dom Vital: Maria, Mãe de Deus e a Paz

Maria disse sim ao plano do Senhor para a salvação da humanidade. Maria sendo percebida com o título de Mãe de Deus, aquela que gerou na carne o Filho de Deus, esta doutrina teve a sua origem na escola de Alexandria.
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No início de cada ano, a liturgia coloca-nos a benção de Deus, para que ao longo do ano e em nossa vida, tudo ocorra conforme a vontade de Deus (cfr. Nm 6,24-26). É também ocasião para que a Igreja festeje Maria, como Mãe de Deus e também a graça e a responsabilidade humana para a construção da paz. Cristo é a paz (cfr. Ef 2,14), é o Príncipe da Paz (cfr. Is 9,5). Para o dia mundial da paz, ano de 2022, o Papa Francisco adverte à humanidade e a todos nós a necessidade da paz, ressaltando a educação, trabalho, diálogo entre as gerações: instrumentos para a construção de uma paz duradoura. Ele colocou a necessidade de que se aumentem os orçamentos à educação e à saúde e haja a diminuição dos orçamentos militares, com as armas, para que a paz ocorra em todas as nações e povos. Vamos construir um mundo diferente pelo reinado da paz e do amor.

Theotókos

Maria disse sim ao plano do Senhor para a salvação da humanidade. Maria sendo percebida com o título de Mãe de Deus, aquela que gerou na carne o Filho de Deus, esta doutrina teve a sua origem na escola de Alexandria. A partir do século IV em diante este título foi bastante usado pelos padres da Igreja, diante das polêmicas de Nestório, que preferia o Christotókos, Maria como aquela que gerou o Cristo, houve a sua definição no Concílio de Éfeso, 431. O fato foi que em Maria não se aludiu a ela um título de deusa, mas como aquela criatura, preservada do pecado original pelo Senhor, a qual colaborou com o plano de Deus na redenção da humanidade[1]. A seguir nós veremos como os padres da Igreja elaboraram uma doutrina a respeito de Maria, com o título de Mãe de Deus.

Na humanidade, Cristo Jesus nasceu da Virgem Maria

São Vicente de Lérins, escritor eclesiástico da Gália, França, século V, afirmou que a unidade da pessoa de Cristo se constituiu e se aperfeiçoou não após o parto da Virgem, mas no mesmo útero virginal e que Ele é um com o Pai e um com a Mãe. Nele Deus se uniu ao ser humano e é de unidade pessoal não após o batismo, a ressurreição ou na sua ascensão, mas sim na mãe, no útero, no momento mesmo da concepção virginal. Por esta unidade na pessoa do Senhor se dá a propriedade de Deus ao ser humano e as propriedades da carne se atribuem a Deus. Desta forma o Verbo de Deus nasceu da Virgem Maria. Por isso devemos professar que Maria pela graça de Deus, é Mãe de Deus, pelo dom do nosso Senhor Deus, que é o seu Filho, Jesus Cristo[2].

Hino à mãe de Deus e a paz

Rábula de Edessa, bispo na Síria, século V, compôs um hino à Virgem Maria como mãe de Deus. Ela é santa, mas Maria é também tesouro maravilhoso e esplêndido, dado a todo o mundo, luz irradiante do Incompreensível, templo puro do Criador de todas as coisas. Através dela foi anunciado Aquele que tirou os pecados do mundo e os redimiu. Fortalece a nossa fé e doa a paz para o mundo inteiro. O bispo teve presente que os fieis supliquem à Maria para que a nossa maldade não leve para a ruína e Maria volta-se ao seu povo, enquanto ela reza ao seu Unigênito, o Filho saído dela, para que tenha piedade de todos os fiéis, pela sua santa oração[3].

Eva e a Virgem Maria

São Justino de Roma, padre da Igreja, século II, teve presentes às duas mulheres em relação com o Senhor Deus. Se Eva enquanto era ainda virgem e incorrupta, tendo concebido a palavra que a serpente lhe disse, deu à luz a desobediência e a morte, a virgem Maria concebeu fé e alegria, quando o anjo Gabriel lhe comunicou que o Espírito Santo viria sobre ela e a força do Altíssimo a cobriria com sua sombra, de modo que o santo que nasceu será o Filho de Deus (cfr. Lc 1,35). Por isso ela respondeu à proposta do Senhor de uma forma positiva colocando-se a disposição de sua palavra (cfr. Lc 1,38)[4].

Maria, a segunda Eva

Santo Ireneu de Lyon, bispo, séculos II e III afirmou que Maria é a segunda Eva, a sua advogada, porque enquanto a primeira Eva deixou-se seduzir de modo a desobedecer a Deus, a segunda deixou-se persuadir a obedecer a Deus, para que, da virgem Eva, a Virgem Maria se tornasse advogada. Se o gênero humano submeteu-se à morte por uma virgem, ele libertou-se dela por uma outra virgem, porque a desobediência de uma virgem foi contrabalançada pela obediência de uma outra virgem. O pecado do primeiro ser humano foi curado pela correção de conduta do Primogênito[5].

Ainda em Santo Ireneu encontra-se o dado que Maria contribuiu para a salvação vinda ao mundo com Jesus Cristo. Se pela desobediência de Eva tornou-se para si e para todo o gênero humano causa da morte, Maria, pela sua obediência se tornou para si e para todo o gênero humano, causa de salvação[6].

O Verbo veio ao mundo pelo seio de Maria

Santo Atanásio, bispo de Alexandria, século IV disse que o Senhor assumiu um corpo semelhante ao nosso de modo que Maria entrou presente neste mistério. Foi dela que o Verbo assumiu aquele corpo, que se ofereceu pelos seres humanos. A Sagrada escritura teve presentes que no nascimento do Senhor, o menino foi envolto em panos (Lc 2,7). Ele é o Filho de Deus na carne, de modo o anjo Gabriel disse para Maria que o Santo que nascer dela, será Filho de Deus (Lc 1,35). Desta forma o Verbo de Deus, recebendo nossa natureza humana e oferecendo-se em sacrifício, assumiu-a em sua totalidade, para que a humanidade fosse revestida da sua natureza divina[7].

Maternidade divina de Maria

São Cirilo de Alexandria, bispo, séculos IV e V afirmou contra Nestório, bispo de Constantinopla, a maternidade divina de Maria. Para ele causava admiração que alguns duvidassem em dar à Virgem Santíssima, o título de Mãe de Deus. De fato, se nosso Senhor Jesus Cristo é Deus, por que motivo não pode ser chamada de Mãe de Deus a Virgem que o gerou? O bispo de Alexandria lembrou que Santo Atanásio, também escreveu que a Virgem recebeu o titulo de Mãe de Deus. Desta forma, o Emanuel, Deus-conosco, possui duas realidades isto é, a divindade e a humanidade, sendo um só Senhor Jesus Cristo, único e verdadeiro Filho natureza, e ao mesmo tempo, Deus e homem[8].

Maria gerou o Senhor

Santo Agostinho bispo de Hipona, séculos IV e V também teve presente Maria com o título de Mãe de Deus. O bispo defendeu a expressão que Maria deu ao nascimento o Senhor na natureza humana. O Senhor do céu e da terra nasceu de Maria. Ele também disse que Deus nasceu de uma mulher na realidade humana[9].

Maria recebeu o título de Mãe de Deus. Ela gerou na carne o Filho de Deus, de modo que a ela lhe é dado este título. Como disse São Cirilo de Alexandria, o fato de que o Filho de Deus é também Filho de Maria, gerado por ela pela realidade humana, Maria leva este titulo. A sua comemoração é dada no inicio do ano. Ela leve os nossos pedidos ao seu Filho Jesus Cristo. A Paz esteja presente em nossas relações e o mundo se preocupe com a paz, construindo educação, trabalho, diálogo, como nos fala o Papa Francisco de modo que haja mais investimentos na educação, na paz e menos em armas, as quais destroem vidas. Nós devemos lutar pela vida, porque Deus é paz, é vida, é amor.

[1] Cfr. E. Peretto. Theotokos. In: Nuovo Dizionario Patristico e di Antichità Cristianediretto da Angelo Di Berardino, P-Z. Marietti, Genova, 2008, pg. 5346.

[2] Cfr. Vincenzo di Lérins. Commonitorio, 15. In: La teologia dei padri, v. 2. Città Nuova Editrice, Roma, 1982, pgs. 159-160.

[3] Cfr. Rabbula di Edessa. Inni liturgici, 1-4. In: Idem, pg. 163.

[4] Cfr. Justino de Roma. Diálogo com Trifão, 100,5. Paulus, São Paulo, 1995, pg. 265.

[5] Cfr. Ireneu de Lião. Livro V,19,1. Paulus, São Paulo, 1995, pg. 569.

[6] Cfr. Idem. Livro III, 22,4, pg. 352.

[7] Cfr. Das Cartas de Santo Atanásio, bispo. In: Liturgia das horas, I. Editora Vozes, Paulinas, Paulus, Editora Ave-Maria, 1999, Aparecida, SP, 1999, pgs. 435-436.

[8] Cfr. Das Cartas de São Cirilo de Alexandria, bispo. In: Idem, III, pgs. 1381-1382.

[9] Cfr. Sant´Agostino. Serm. 51,12,20; De Trin. 8,5,7. Maria “Dignitas terrae,. Introduzione e note a cura di Agostino Trapè, revisione a cura di Oreste Campagna. Nuova Biblioteca Agostiniana, Città Nuova Editrice, Roma, 1995, pg. 32.

Marcio Brito
Marcio Brito

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